Autodepuração – Caso Prático Rio Tietê

Publicado por Projetae em

O processo natural de recuperação de corpos hídricos, denominado autodepuração, é um bom exemplo da atuação dos ecossistemas no sentido de retorno à um estado de equilíbrio. Após o lançamento de efluentes orgânicos (desequilíbrio), notadamente despejos domésticos (esgoto), profundas alterações físicas ocorrem nos corpos d’água, estes processos são amplamente conhecidos, estudados e muito bem definidos, permitindo inclusive a criação e utilização de modelos matemáticos que podem prever em quais locais os rios possuirão características próprias ou impróprias para uso. O processo de autodepuração é muito semelhante aos processos de recuperação florestal, especialmente se analisados os parâmetros de diversidade de organismos nas diferentes fases do processo.

O gráfico abaixo é bastante ilustrativo e mostra em detalhes os efeitos do lançamento de uma carga poluidora em um corpo hídrico, no exemplo um rio. Inicialmente o rio apresenta condições normais, com oxigênio dissolvido elevado e grande diversidade de organismos, no ponto de lançamento e imediações (zona de decomposição) ocorre uma elevação da quantidade de matéria orgânica e imediata depleção do nível de oxigênio dissolvido, essa alteração impede a presença de organismos que requerem concentrações elevadas de O2, permanecendo apenas algumas espécies capazes de sobreviver nessas condições. Em seguida observa-se a zona séptica, ou anaeróbia, em que o oxigênio chega ao seu valor mínimo, nessa região ocorre a predominância de microrganismos anaeróbios, responsáveis pelo mau cheiro característico de rios poluídos, é a região “morta” do rio.

Ao longo de seu curso, mantidas as circunstâncias normais, sem novos lançamentos, as condições vão se alterando naturalmente, a matéria orgânica é consumida, o oxigênio volta a subir e novas espécies voltam a habitar o corpo d’água, tem-se, portanto, a chamada zona de recuperação, que é em termos gerais uma transição entre a zona anaeróbia e a zona limpa. A extensão de cada fase (zona) depende de diversos fatores, dentre eles as características geomorfológicas/topográficas do rio, sua vazão, aporte de novos lançamentos ou de afluentes, características da própria água. Um exemplo da influência desses fatores é a presença de ressaltos ou águas caudalosas, que facilita a reoxigenação da água, enquanto trechos mais calmos proporcionam menores taxas de reoxigenação.

Em ambientes de água parada como lagos e represas, a ocorrência de lançamentos de efluentes orgânicos e nutrientes pode desencadear processos mais severos de degradação, como a eutrofização, motivo pelo qual existem regras específicas para o lançamento de nutrientes orgânicos, especialmente nitrogênio e fósforo, nesse tipo de corpo hídrico.

Para exemplificar o processo, vamos acompanhar o caso do rio Tietê, que nasce em Salesópolis na serra do mar e se desenvolve ao longo do estado de São Paulo no sentido interior, até desaguar no rio Paraná. Ao longo do seu percurso de 1100 quilômetros, o rio passa por regiões densamente povoadas (Região metropolitana de São Paulo), recebendo lançamento dos mais variados efluentes, especialmente efluentes domésticos. Por um trecho relativamente grande de sua extensão, o rio encontra-se morto, a extensão da mancha de poluição varia ano a ano, tendo atingido em seu valor mínimo 71 km em 2014. A autodepuração se faz presente também no rio Tietê, e gradativamente a qualidade da água vai melhorando ao longo do seu percurso, diferentemente do sistema apresentado com uma única fonte poluidora, o rio recebe novas contribuições e lançamentos de efluentes, entretanto a qualidade da água em seu trecho de jusante é considerada regular/boa, permitindo sua utilização para diferentes usos. Nas Figuras abaixo é possível ver o histórico de qualidade do rio até o reservatório de Barra Bonito nos anos de 2010, 2012, 2014, 2016 e 2018.

Nas fotos abaixo é possível observar o mesmo trecho do Rio Tietê em diferentes condições de qualidade.

Os modelos de autodepuração são fundamentais para a definição dos parâmetros de lançamento do efluente tratado em uma ETE. É a partir deles e dos parâmetros de qualidade de efluente que são determinados os níveis de tratamento e os processos necessários para atingi-los.

Ainda há um longo caminho para despoluir totalmente o rio Tietê e os demais rios brasileiros que se encontram poluídos, todos podem contribuir para esse objetivo, informe-se e participe. Na sua cidade existe algum rio poluído? Consegue observar em qual estágio de depuração ele se encontra?

Fontes:

https://guiaecologico.wordpress.com/2011/07/18/voce-sabe-como-funciona-a-autodepuracao-em-rios/

https://www.sosma.org.br/wp-content/uploads/2018/09/SOSMA_Observando-Tiete-2018.pdf

Categorias: ÁguaEsgoto